Auto-retrato
Uma imagem congelada da nossa vida. Um momento por nós mesmo escolhido, determinado por um desejo específico ou talvez por um não desejo. Um gesto ditado pelo instinto e contemporaneamente guiado pela razão. Nesta ambivalência entre movimento espontâneo e movimento pensado, o ato de congelar a imagem ou mesmo uma situação, nossa, da nossa história, da nossa profissão, torna-se um tipo de instrumento que consente compreender quem somos, como nos vemos ou, melhor, como os outros nos vêem.
A imagem congelada que torna este conceito concreto geralmente está ligada ao Auto-retrato fotográfico. O clique provocado pela ligeira pressão do nosso dedo naquela que cada vez mais freqüentemente é uma máquina digital, nos faz ver imediatamente o “nós” como os outros vêem. Bonitos, feios, jovens ou não tão jovens, todavia, diferentes de como pensamos ser, da imagem que temos de nós próprios. E tornar objetiva uma imagem que antes estava somente em nossa mente nos permite ativar um processo de conscientização e a consciência de ser ou de não ser permitem efetuar correções e modificar um ou vários aspectos que nos dizem respeito. Banalmente se nos vemos carrancudos, podemos nos exercitar na tentativa de ficar mais alegres, mais abertos ao sorriso. Se nos vemos meio rechonchudos podemos decidir que chegou o momento de iniciar a dieta que sempre tínhamos evitado.
Por outro lado, querendo ler metaforicamente o conceito afastando-se da normal aplicação fotográfica também podemos dizer que o Auto-retrato é uma maneira para “brincar consigo mesmo” ou é uma maneira para fazer balanços. É, certamente, uma prova de coragem ao analisar um estado pessoal, profissional ou social. Uma investigação profunda da própria performance em um dado momento da vida. Uma peça temporal: agora, já, hoje, este ano. É a parada que nos permite julgar, olhando obviamente para o percurso que ficou para trás, em que nos tornamos agora.
Se quem fizer isto for uma empresa, pode ser o resultado de um conjunto de elementos que a identificam (notoriedade, lucro, clima interno, relevância no mercado). Comparando todas as imagens congeladas o empresário poderá medir, com o passar do tempo, o estado de saúde da própria empresa. E a mesma atitude de análise poderá ser aplicada em qualquer situação profissional, até mesmo aquela artística e criativa. Repito um conceito que considero muito interessante e que pode ser entendido na leitura deste texto: “o sentido do auto-retrato é ficar um instante imóveis para entender quem somos, para onde iremos. Quem sabe se observar sabe mudar”.
As imagens deste número: Estonian Academy of Arts, Tallinn
